01Julho2022



 

Segurança & Defesa

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Operações russas na Ucrânia: resultados do primeiro mês

No dia 25 de março, o Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas da Rússia liberou os há muito tempo esperados detalhes sobre as “Operações Militares Especiais na Ucrânia”, iniciadas em 24 de fevereiro próximo passado. As missões haviam sido anunciadas pelo Comandante Supremo das Forças Armadas russas, o presidente Vladimir Putin, que indicou que as operações objetivavam “pôr fim ao genocídio” da população de língua russa da província de Donbass, no leste da Ucrânia, que vinha sofrendo desde o golpe de estado perpetrado em Kiev em fevereiro de 2014. Conforme o referendo realizado em março de 2014, a Ucrânia deveria também aceitar a independência da República de Donbass, bem como o “status” da Crimeia e de Sebastopol como territórios russos. A operação também deveria levar a Ucrânia a uma condição de neutralizada, bem como à sua completa “desmilitarização e desnazificação”.

É interessante observar que nenhum dos dois países declarou guerra ao outro. Do lado russo, as ações de combate têm sido conduzidas de forma a evitar ao máximo baixas civis, o que fez com que especialistas ocidentais tenham utilizado o termo “a guerra com luvas brancas”. Já as unidades das Forças Armadas ucranianas (VSU) têm utilizado não combatentes como “escudos humanos”.

Ao apresentar aos jornalistas os resultados preliminares da operação, o Coronel-General Sergei Rudskoy, chefe do Departamento Operacional do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas russas, declarou que “a operação estava se desenvolvendo segundo o plano pré-estabelecido”, e informou que as baixas totais da VSU haviam chegado a 30.000 militares, ao mesmo tempo em que os efetivos do grupo operacional ucraniano em Donbass havia sido reduzido em 25%. “Por ocasião do início da operação, as Forças Armadas ucranianas, incluindo a Guarda Nacional, tinham um efetivo de 260.200 militares. No transcorrer de um mês, suas baixas totalizaram 30.000 militares, sendo 14.000 mortos e 16.000 feridos”, disse o General. “O grupo operacional das Forças Armadas da Ucrânia, a Guarda Nacional e batalhões nacionalistas que combateram em Donbass contra as milícias de Donetsk e Lugansk (combatentes da República de Donbass) perderam cerca de 16.000 militares, ou seja, 16 por cento de seu efetivo total de 59.300”, concluiu Rudskoy.

Segundo o Ministério da Defesa, o isolamento das unidades ucranianas em Donbass e a captura por forças russas de importantes estações ferroviárias em áreas vitais impedem a VSU de compensar as perdas. Além disso, o suprimento das tropas ucranianas com mísseis, munição, combustível e víveres foi quase que completamente interrompido.

Rudskoy enfatizou que a Força Aérea e o sistema de defesa aéreo da Ucrânia tinham sido praticamente destruídos, e que a Marinha ucraniana já tinha deixado de existir. Segundo ele, ataques de precisão estão sendo executados contra instalações da infraestrutura militar, tais como aeródromos, concentrações de tropas, pontos de controle, arsenais e depósitos. As perdas materiais da VSU incluíram: 1.587 blindados (incluindo carros de combate), de um total de 2.416; 112 aviões militares, de um total de 152; 75 helicópteros, de um total de 149; 35 ARP Bayraktar TB2, de um total de 36; 148 sistemas de defesa aérea Buk-M1 e S-300, de um total de 180; e 117 radares de vários tipos, de um total de 300. O General Rudskoy também mencionou que 16 grandes bases aéreas foram atingidas, 39 arsenais — que abrigavam 70% dos estoques ucranianos de material militar — foram destruídos.

Falando sobre as perdas russas, Rudskoy revelou que 1.351 militares haviam sido mortos, e 3.825 haviam sido feridos. Acrescentou que o Estado se encarregaria de todos os temas relativos ao apoio à família dos mortos e feridos, incluindo a “educação das crianças, pagamento de empréstimos e solução de assuntos referentes à moradia”.

O General frisou que as principais tarefas da primeira fase das operações haviam sido concluídas. “O potencial de combate das Forças Armadas da Ucrânia foi significativamente reduzido, o que permite — mais uma vez repito — ajustar o foco do esforço para a conquista do objetivo principal: a libertação de Donbass”, disse ele. Segundo os dados fornecidos, a Milícia Popular de Lugansk libertou 93% do território da República, enquanto a Milícia Popular de Donetsk já controla 54% do território da República. Rudskoy destacou que as Forças Armadas russas haviam bloqueado Kiev, Kharkov, Chernihiv, Suny e Nikolaev, e havia tomado o total controle sobre Kherson e sobre a maioria da região de Zaporozhe. A Ucrânia perdeu o acesso ao mar de Azov, e a qualquer parte da antiga fronteira com a Rússia. 

No dia seguinte, o Ministério da Defesa da Rússia adicionou novas informações. De acordo com o Major-General Igor Konashenkov, no dia que se seguiu à apresentação de seu colega Rudskoy, a Força Aérea e Espacial da Rússia (VKS) destruíra 117 objetivos militares, incluindo seis postos de comando, um lançador de mísseis Tochka-U, três unidades de lançadores múltiplos de foguetes, uma unidade de mísseis de defesa antiaérea de longo alcance S-300, nove depósitos de munição, dois de petróleo e 92 posições hostis. Durante aquele dia, a Rússia destruiu mais duas aeronaves Su-25, mais um Su-24 e seis ARP. Segundo Konashenkov, as perdas da VSU já haviam atingido 267 aviões, helicópteros e ARP, 207 sistemas de defesa aérea, 1.618 blindados, 166 lançadores de foguetes, 662 peças de artilharia e 1.453 outras viaturas.

A razão de 1:10 nas perdas russas e ucranianas podem ser facilmente explicadas pela esmagadora superioridade russa em armamento e tática. O armamento inteligente disponível nas plataformas terrestres, aéreas e navais da Rússia não dá chance à VSU para uma defesa prolongada, a despeito de que — contando as chamadas tropas de “defesa territorial” e mercenários estrangeiros, — seus efetivos possam ser superiores na razão de 4:1.

A Rússia tem constantemente empregado mísseis Iskander-M, a mais poderosa arma convencional de seu Exército. O Iskander (Fotos: cortesia HPW) é um produto da High-Precision Weapons Holding, existindo nas variantes balística e de cruzeiro. Segundo fontes ostensivas, o míssil pode lançar uma cabeça de guerra de 480kg a 500km de distância, com precisão de 5-7m. A Marinha russa tem usado os mísseis Onyx e Bastion (ambos produtos da NPO Mach Tactical Missile Cirporation) e, também, Caliber-K (projetado pelo Novator Design Bureau). Uma total surpresa, não só para a Ucrânia mas também para a OTAN, foi o emprego em combate, pela primeira vez, do míssil hipersônico Kinzhal, que foi disparado por um MiG-31K a partir do espaço aéreo russo, atingindo o “bunker” construídos pelos soviéticos na Ucrânia Ocidental, a mais de 1.000km de distância. Com velocidade de Mach 10, o míssil penetrou 100m de solo e 15m de concreto para demolir o depósito de mísseis Tochka-U. Essa arma foi originalmente apresentada publicamente pelo presidente russo em 1º de março de 2018, tendo sido motivos de alguns comentários céticos por fontes ocidentais. Seu desempenho recente, no entanto, confirmou o desempenho anunciado.

Ainda não está claro por quanto tempo mais prosseguirá a “operação”, mais sua conclusão — favorável à Rússia — estabelecerá uma situação totalmente nova na Europa, Eurásia e no mundo. (Texto de Yuri Laskin).